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Montagem de Koltès rerbera a solidão do mundo
SERGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA

“O teatro é um jogo. Querendo participar, é preciso conhecer suas regras, as aceitar, se conformar com elas, sem o que acabamos inevitavelmente na posição estúpida de um adulto jogado na rede complicada dos jogos infantis dos quais ele ignora a trama… Isso dito, o alcance deste espetáculo está no imediato”. Bernard-Marie Koltès escrevia com essa clareza de objetivo já no programa de seu primeiro espetáculo, “Les Amertumes”, que ele escreveu, dirigiu e interpretou aos 22 anos, em 1970. Este Cazuza do teatro francês vai se lançar definitivamente em 1977, com o monólogo “A Noite Antes da Floresta” no Festival Off de Avignon, texto que passou a ser montado constantemente nos festivais universitários e como clássico moderno, o que sua morte prematura em 1989 só fez reforçar.
Quais as regras desse jogo de Koltès? Primeiro, suas peças sempre se passam no imediato: estamos entalados no aqui agora, com poucas ilusões sobre o futuro, e com apenas fragmentos de memória. Mas a palavra não recua diante da imagem: com a verborragia abstrata dos simbolistas, seus anti-heróis hipnotizam como cobras a platéia-presa.
Esta “Noite Antes da Floresta” é bem representativa da trama que enreda sem explicar, em labirintos de pequenas histórias que se completam. Um homem nos interpela na chuva: precisa da nossa ajuda, mas não quer implorar. Em troca, não quer dinheiro, mas um lugar para enfrentar a noite.
Nesta montagem, por convite de Otávio Martins, Francisco Medeiros construiu uma partitura precisa, na qual cada palavra corresponde a um gesto discretamente não-ilustrativo, e aos poucos, obsessivamente, vão aparecendo as cartas desse tarô: a mãe é o indicador apontado para baixo, para o perigoso mundo instintivo; o trabalho, falsa razão usurpadora, é o dedo médio apontado para cima. A opressiva cenografia de Duda Arruk e José Silveira também vai sendo transformada pelas palavras do texto: os espelhos obscuros que a cidade põe atrás de nós, e a calçada rachada, que é o metrô da descida ao inferno e a ponte do amor impossível. Alusões da trilha de Aline Meyer e da luz de Domingos Quintiliano são perturbadoramente eficientes para mostrar nosso rosto nesse espelho deformado.
Entre o céu e a terra, estrangeiro humilhado, ator que busca na platéia sempre fugidia um interlocutor à altura, o protagonista é um misto de Woyzeck e Hamlet. Um papel para o qual um ator deve se preparar bem, e Otavio Martins está a altura. Depois de uma longa militância na Cia. do Latão e algumas incursões no teatro comercial, tem maturidade para manter a concentração e intensidade sem deixar nunca de ser orgânico nem relaxar a guarda. No limite extremo da exasperação, ele se deita no chão, e sua vulnerabilidade finalmente nos contagia quando finalmente o texto revela o que é: uma história de amor desesperado.
A isso se acrescente o fato de esse testemunho ser oferecido no Espaço dos Satyros, no qual, com paciência meticulosa, um novo teatro vem se forjando. Sem tempo nem espaço vazios, aqui, nos horários sucessivos, “Oração para um Pé-de-Chinelo”, de Plínio Marcos, se sucede à “Vida na Praça Roosevelt”, de Dea Loher, e é como se reverberasse nessas paredes a urgência do grito de Koltès. Juntando os pedaços dessa gente em frangalhos, o Espaço dos Satyros faz um manto e nos aquece para enfrentar a noite.