Área de Login da Baobá - Produções Artísticas

Para fazer login como Administrador ou usuário do site, preencha os campos à direita com seus dados de login.

Acesso Administrativo Baobá

 /  Esqueceu a senha?

Baobá

Monólogo de Koltès coloca questão sobre quem é estrangeiro
Michel Fernandes, do Aplauso Brasil

Em muitos aspectos assistir ao espetáculo “A Noite Antes da Floresta”, de Bernard-Marie Koltès, dirigido por Francisco Medeiros, é um imenso prazer. Além da qualidade estética, saímos da peça pensando na noção do que o autor quer discorrer com a questão “ser estrangeiro”. Otávio Martins, em excelente interpretação, vive esse personagem que vaga pela rua numa noite de chuva e segue um rapaz pedindo um lugar pra passar a noite e alguma atenção. Ele diz que é estrangeiro, embora só desconfiassem disso porque ele lava seu membro após urinar. Essa explicação metafórica sobre o substantivo estrangeiro dimensiona o universo poético que circunda o texto de Koltès. A noção de estrangeiro, segundo “A Noite Antes da Floresta” não revela apenas a idéia daquele que vive num país ou lugar que não o seu de origem, mas sim, o que não se enquadra a modelos usuais. O forasteiro aqui é qualquer ser que não se insere no grupo majoritário da sociedade: homossexuais, portadores de deficiências, gordos, negros, estrangeiros propriamente ditos, entre tantos seres não usuais. A pluralidade de sentidos direciona nossa sensibilidade à comunhão poética com o espetáculo, auxiliados por elementos além-texto que tornam a peça exemplo de multiplicidade de talentos: direção, interpretação, cenário, figurino, iluminação e música. Mas não é somente uma peça de idéias. Como todo poema de vigor e sensibilidade, o amor está presente. Ronda o texto quando ele fala da mãe-ausente, quando fala da prostituta que comeu terra de cemitério, quando oferece proteção ao interlocutor – que, por nunca vermos, nem sabemos se existe ou se é fruto da sua desesperada imaginação solitária. É, em todos os casos, um amor estrangeiro, porque não usual. Um uivo dolorido de solidão. Desejo verdadeiro de querer amar e ser menos estrangeiro nesse mundo em que a sensibilidade é constantemente atropelada pela dinâmica mercantilista que nos faz objetos. Chiquinho Medeiros, diretor, e Otávio Martins, ator, contam com o auxílio evidente e essencial de Thiago Antunes, quem assina a preparação corporal do espetáculo. Há uma orquestração clara por parte da direção para que cada nota desta partitura corporal, paralela ao texto escrito, crie dinâmica e novos nichos de poesia. O cenário (Duda Arruk e José Silveira), o figurino (Elena Toscano e Rafael Aranha) e o desenho de luz criado por Domingos Quintiliano – que utiliza os espelhamentos da cenografia dando efeito de extrema beleza – dão roupagem que criam novas comunicações com os espectadores que compõem o espetáculo de acordo com suas múltiplas possibilidades.